O PAPEL É APENAS O SUPORTE DE UM EMARANHADO DE INFORMAÇÕES MAIS COMPLEXAS DO QUE SE SE PODE IMAGINAR.
O primeiro jornal impresso brasileiro é de 1808, quando o país ainda era uma simples colônia de Portugal. Do seu descobrimento, em 1500 até a primeira edição de um jornal foram mais de 300 anos, sob a condição de colônia adormecida devido à proibição de letras impressas no local. Os dirigentes portugueses mantinham com severidade o controle intelectual, com intuito de manter a consciência cidadã enfraquecida, sem a influência reflexiva conseqüente do conhecimento.
O marco da chegada da imprensa ao Brasil foi a transferência da família real, de Portugal para a colônia. Dom João VI começou, então, um processo de desenvolvimento intelectual de sua presente residência. A colônia, na condição de sede de seus dirigentes, se viu progredindo nos aspectos econômicos e políticos. A invasão francesa em solo português foi ponto crucial para o a implantação de fábricas, faculdades, e em 13 de maio de 1808, da primeira casa editora, responsável pela impressão de livros didáticos. Isabel Lustosa (2003, p.8) aponta o surgimento da imprensa um dos fatores fundamentais para a Independência do país, que aconteceu quatorze anos após a inauguração da palavra impressa por aqui.
Era inegavelmente uma mudança radical na vida e nos costumes da antiga colônia. Essa mudança seria seguida, quatorze anos depois, pela Independência. Mas, entre a chegada do rei e o Sete de Setembro de 1822, uma sucessão de acontecimentos internacionais e locais formariam o caldo em que foi cozida a Independência do Brasil. O elemento mais importante para esse processo foi mesmo a mudança do centro do poder português de Lisboa para o Rio de Janeiro, com todas as suas conseqüências. Dessas, as mais decisivas foram, a revolução constitucionalista do Porto, em 1820, e a liberação da imprensa no Brasil.
Um ponto interessante do surgimento do primeiro jornal brasileiro é o fato de ele ter nascido fora da colônia, por iniciativa de Hipólito da Costa. Aconteceu em Londres, para onde Hipólito fugiu exilado, em 1805. Ele morou por muitos anos em Lisboa, em 1798, partiu para os Estados Unidos como enviado especial da corte portuguesa.
Hipólito fora cativado por todo aquele desenvolvimento comercial e intelectual dos norte-americanos. Voltou para Portugal em 1800 influenciado por idéias maçônicas, e em Lisboa, assumiu um cargo na Imprensa Régia. Em uma viagem de trabalho à Londres, deparou-se também com a maçonaria de lá. As atividades com os maçons ingleses renderam-lhe sua prisão, logo após sua volta, a Portugal.
No seu exílio em Londres, após sua fuga em 1805, trabalhou como professor e tradutor. Com a ida da família real para a colônia brasileira, e estimulado pela independência intelectual inglesa, “Hipólito reconheceu esse fato único – o de uma cabeça coroada reinando na América” (LUSTOSA, 2003, p.13). Sua posição favorável em solo inglês pelos contatos maçônico e sua amizade com o Duque de Sussex, filho do rei, fez com que ele se sentisse confortável para exercer sua natureza de jornalista. Hipólito queria escrever para o leitor brasileiro, e assim o fez. O periódico se chamava Correio Braziliense e tinha função também educativa. Sobre o assunto, Lustosa (2003, p.15) argumenta:
Num tempo em que acesso à educação era tão menos democrático, em que vivíamos mudança do mundo a partir das idéias disseminadas pelo Iluminismo ao longo do século anterior, a imprensa se firmara como um importante difusor das chamadas Luzes. Naquele contexto, o jornalista se confundia com o educador. Ele via como sua missão suprir a falta de escolas e de livros através dos seus escritos jornalísticos.
O que a autora evidencia, ao retratar o papel de Hipólito da Costa na imprensa brasileira, é a capacidade de se acumular, em diários, informações como fontes de consulta e comparação de sociedades, para qualquer interessado. Escrever cronologicamente sobre os costumes a trajetória política e social de algum lugar é construir um objeto de consulta. O jornal é uma fonte primária, é um documento histórico para o estudo de uma sociedade e cultura de um período.
O Correio era um jornal em formato de livro, repleto de discursos e “densos artigos onde a informação era veiculada de forma circunstanciada e analítica” (LUSTOSA, 2003, p.15). Ele era um jornal politicamente posicionado e tão importante para a trajetória da imprensa nacional quanto para questões históricas relevantes. Lustosa (2003, p.17) conta:
Era para informar os brasileiros do que se passava no mundo, para influir sobre seus espíritos direcionando-os no sentido das idéias liberais, para chamar a atenção para o caráter daninho do Absolutismo ou de qualquer forma de despotismo que Hipólito escrevia.
Em setembro de 1808 foi impresso o primeiro jornal em solo brasileiro, chamava-se Gazeta do Rio de Janeiro e era completamente monitorado pela Imprensa Régia. A Gazeta era completamente orientada pela ideologia da realeza, o leitor carioca somente tinha acesso às informações comprometidas com os interesses das classes dominantes.
A partida de Dom João VI ocorreu numa época efervescente no solo da colônia. Constantes discussões surgiam sobre a Independência e, naturalmente, surgiram impressos independentes. O Brasil, sob a condição de colônia, via florescer uma imprensa engajada nas questões de liberdade sócio-econômica do local, e os periódicos independentes eram instrumentos de articulação e propagação de ideologias. O Brasil estava apenas no início de bravas lutas pela Independência. Eram os primeiro capítulos da história nacional tendo-se a imprensa como instrumento de influência nas questões sociais da época.
Falar da história do Correio é falar da história do Brasil. E assim ocorre com muitos outros periódicos. O jornal impresso tem enraizada a função de mediador entre a sociedade e seus dirigentes. É também, através dos periódicos que se pode conhecer, com riqueza de detalhes, os costumes de uma sociedade, podendo-se assim entender as mais diversas culturas. Vale destacar a importância do jornal na esfera política e seus desdobramentos junto à sociedade.
Os cadernos políticos trazem informações essenciais para o conhecimento da maneira com que, através das épocas, as classes dominantes se comunicaram com outros estratos sociais, bem como a forma que tais estratos recebem as informações por meio do jornalismo. Silva (2006, p.37) comenta:
A imprensa adquire importância como objeto historiográfico no campo da história política quando consideramos a especificidade do político, em sua dinâmica própria, e as relações de mediação entre a sociedade e estado. [...] Na medida em que valorizamos as mediações entre sociedade e Estado e entendermos que os conceitos, como formas de consciência, compõem a vida política, apreçaremos também a imprensa. Nesse contexto, a imprensa, sobretudo a periódica, é um importante meio de construção de culturas políticas específicas, ou seja, empiricamente verificáveis e de interesse historiográfico.
Não importa a época, o jornal impresso tem a capacidade de contar a história do lugar, influenciar o leitor e exercer a função de mediador entre sociedade e Estado. Através do jornalismo impresso, faz-se um banco de dados capaz de oferecer conteúdos legítimos o bastante para pesquisadores, historiadores e a população em geral. O indivíduo precisa conhecer a história do seu país, e ter acesso a periódicos, com a envergadura moral necessária para estudo e análise, é relevante para a construção da memória histórica do cidadão.
Os acervos de jornais são verdadeiras bibliotecas, qualquer um pode estudar, analisar, apenas conhecer a história de qualquer lugares através de um simples jornal. Ele reproduz a conjuntura sócio-econômica de uma sociedade, as notícias, seus tamanhos, sua disposição na página. Ilustrações e editorias formam um conjunto de posicionamentos capazes de tornar possível a análise e reconstrução crítica da história do lugar.
Jornais são instrumentos de voz, possibilitam a propagação de ideologias, são formas eficazes de influência de massa e legítimas fontes de consulta.
LUSTOSA, Isabel. O nascimento da imprensa brasileira. Rio de Janeiro. Jorge Zahar.2003
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